Fauna, sombra e desafios: o paradoxo da ‘Cidade Árvore’ nas periferias de Campo Grande

Campo Grande foi eleita pela 7ª vez como 'Cidade Árvore do Mundo'
Uma das principais características apreciadas tanto pelos moradores quanto pelos turistas na capital sul-mato-grossense é justamente a possibilidade de se deparar com aves e animais silvestres ao caminhar pela cidade. Isso só é possível graças à presença de milhares de árvores espalhadas pelas vias urbanas de Campo Grande, que ajudam a proteger a biodiversidade e servem de refúgio para aves e animais de pequeno porte.
No Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, a arborização urbana ganha ainda mais destaque diante dos diversos benefícios que proporciona à população, desde a redução das temperaturas e a melhoria da qualidade do ar até a criação de espaços mais agradáveis para circulação e lazer.
Conforme avaliam especialistas ouvidos pelo Jornal Midiamax, a vegetação urbana é considerada um importante indutor de qualidade ambiental e de vida, devido às suas funções ecológicas, estéticas e sociais.
No entanto, apesar de ter conquistado o título de “Cidade Árvore” pela sétima vez e dispor da presença de áreas verdes em abundância, a arborização ainda esbarra em desafios históricos de ocupação que atravessam mandatos, revelando gargalos na qualidade de vida, sustentabilidade e justiça socioambiental nas periferias.
‘Cidade Árvore’

Atualmente, Campo Grande dispõe de aproximadamente 175 mil árvores espalhadas pelas calçadas da cidade, conforme levantamento realizado pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). A Capital também conta com quatro grandes parques: Parque das Nações Indígenas, na região do Prosa; Parque do Sóter, também na região do Prosa; Parque Jacques da Luz, na região do Bandeira; e Parque Ayrton Senna, na região do Anhanduizinho.
Além disso, em 2026, a cidade recebeu, pelo sétimo ano consecutivo, o título de “Cidade Árvore do Mundo” (Tree Cities of the World), iniciativa conjunta da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e da Arbor Day Foundation. A certificação considera, além da quantidade de árvores, a forma como a arborização urbana é planejada e gerida.
Conforme explica a auditora fiscal de Meio Ambiente da Semades (Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável), Silvia Rahe, a iniciativa avalia como é feita a gestão da arborização dos municípios. E, para conquistar e manter o título, Campo Grande precisa atender a critérios rigorosos estabelecidos internacionalmente.

Entre os pontos avaliados, estão a estrutura formal de gestão da arborização urbana; legislação específica que regulamente o tema; inventário e monitoramento das árvores; investimentos contínuos na manutenção e expansão da cobertura arbórea; e programas de conscientização e engajamento da população.
Entre as iniciativas permanentes que fortalecem a cultura ambiental na cidade, Rahe cita o projeto Via Verde, que consiste no plantio de novas árvores nas vias públicas como forma de compensar a supressão de árvores necessária para a execução de empreendimentos. A iniciativa utiliza um fator de conversão para definir a quantidade de árvores que deve ser plantada, permitindo a realização de plantios em larga escala.
“Hoje, todos os estudos estão diretamente relacionados à presença de infraestrutura verde com a saúde da população, principalmente aqui no Centro-Oeste, em decorrência do aumento da temperatura e das mudanças climáticas. Então, [a arborização é pensada] não só no bem-estar, mas também em desfechos de mortalidade, que podem ser amenizados com a presença do verde urbano”, explica Rahe.

Além disso, a auditora cita que uma das metas para Campo Grande é atingir a diretriz internacional 3-30-300, a qual estabelece que cada pessoa deveria conseguir enxergar pelo menos três árvores de casa, viver em uma área com 30% de cobertura de copa e estar a no máximo 300 metros de uma área verde pública. A proposta visa garantir que os benefícios da arborização sejam distribuídos de forma igualitária.
Esse cenário ainda não é uma realidade em Campo Grande, mas a expectativa é de que novos projetos sejam colocados em prática para sanar os gargalos existentes na cidade. “O Plano Diretor de Arborização Urbana, na sua revisão, já mapeou e identificou quais são os gargalos e como a gente tem que percorrer nos próximos anos para atender a essa meta dentro da cidade”, acrescenta a auditora fiscal de Meio Ambiente da Semades.
O que a arborização tem a ver com a forma como ocupamos os espaços públicos?

Já imaginou ir a uma praça ou parque sem nenhuma árvore? Seria impossível caminhar ou descansar em um banco em locais assim, devido ao desconforto térmico. Locais com uma boa cobertura de árvores concentram temperaturas mais agradáveis e sombra, duas coisas indispensáveis para uma cidade quente. Além disso, o bem-estar e a saúde mental são alguns dos principais benefícios que os espaços verdes oferecem.
Para ajudar a ilustrar o raciocínio, o geógrafo e doutor em Arquitetura e Urbanismo Julio Botega, professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), cita a diferença entre a Orla Morena e a Orla Ferroviária como exemplo de como a arborização pode influenciar o uso dos espaços públicos.
Enquanto na Orla Morena árvores de grande porte formam áreas de sombra que favorecem a circulação e a permanência das pessoas, o projeto de revitalização da Orla Ferroviária considerou o plantio de palmeiras, árvores que não fazem sombra. Logo, a ausência de árvores nativas de grande porte deixa o espaço na região central mais árido e pouco convidativo para caminhadas durante os períodos mais quentes do dia, por exemplo.
“Não adianta, numa cidade quente como Campo Grande, plantar palmeira, que é uma árvore meramente estética. Se eu não tenho sombra, se eu não tenho abrigo para animais, para aves, se eu não tenho essa árvore colaborando na drenagem, na proteção do solo, ela não é infraestrutura, ela é simplesmente estética. E isso não faz diferença nenhuma dentro de uma cidade desse porte e com o clima severo igual a Campo Grande”, pontua Botega.
Imagens: Mateus Andrade, Jornal Midiamax
Imagens: Madu Livramento, Jornal Midiamax
Um exemplo positivo apontado por Botega, em que a arborização foi pensada como infraestrutura, é a revitalização da Rua 14 de Julho, na qual, segundo o urbanista, o projeto conciliou a arborização com o uso comercial da via. As árvores foram escolhidas de forma que a copa ficasse mais alta, permitindo a visibilidade das vitrines das lojas sem abrir mão de espécies nativas de grande porte.
A expectativa é de que a rua se torne um corredor verde e fique ainda mais atrativa para a circulação de pedestres durante os próximos anos, quando as árvores crescerem.
O urbanista também destaca como ponto positivo a preservação de áreas arborizadas próximas aos córregos de Campo Grande. Apesar de considerar que a proteção ainda não atende integralmente ao que prevê o Código Florestal, ele avalia que a manutenção dessa vegetação é uma característica histórica positiva da cidade.


Já imaginou a cidade sem árvores? Desastres naturais e calor poderiam ser ainda mais intensos
Conforme o geógrafo e doutor em Arquitetura e Urbanismo Julio Botega, professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), a falta de arborização pode agravar problemas de drenagem, erosão do solo, assoreamento de rios e alagamentos em Campo Grande.
Segundo o urbanista, áreas verdes e árvores funcionam como uma espécie de infraestrutura verde, especialmente no entorno de córregos, ajudando a conter o solo e reduzir o volume de terra carregado pelas chuvas. As raízes profundas de espécies do Cerrado, por exemplo, contribuem para a proteção do solo, enquanto a cobertura arbórea também ajuda a amenizar as altas temperaturas em uma cidade quente e seca.
“Se eu tenho uma série de árvores recobrindo uma área grande, com raízes, elas conseguem conter o solo. Se você tem uma área sem proteção arbórea nenhuma, a quantidade de terra que vai embora a cada chuva é enorme. Isso causa assoreamento de rios, enchentes, alagamentos, entre outras coisas. Nós temos problemas graves de enchente em Campo Grande, que talvez não fossem totalmente resolvidos, mas seriam atenuados se nós tivéssemos mais respeito pelas nossas áreas verdes e pela arborização”, explica Botega.

Além disso, em cidades quentes e secas como Campo Grande, áreas bem arborizadas possuem um valor ainda maior, pois regiões com uma boa cobertura verde são capazes de diminuir em até 5ºC a temperatura, em relação a locais sem sombra, conforme pontua a doutora em Geografia e especialista em Planejamento Ambiental Eva Faustino, professora da Fonseca de Moura Barbosa, da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul).
As árvores também são grandes aliadas quando o assunto envolve a qualidade do ar, pois elas filtram poluentes e capturam CO₂, ajudando a combater as mudanças climáticas.
Arborização ainda é desigual entre regiões de Campo Grande
Campo Grande é a capital mais arborizada do Brasil, com mais de 91% das vias públicas contendo árvores, conforme o censo demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), referente ao ano de 2022. Porém, o acesso e a densidade dessas estruturas verdes contam histórias diferentes dependendo do CEP.
Os benefícios da arborização não chegam de forma igual para todos os bairros e moradores de Campo Grande, uma vez que a distribuição territorial da cidade é heterogênea e as sete regiões apresentam diferentes condições socioeconômicas, conforme explica a doutora em Geografia e especialista em Planejamento Ambiental Eva Faustino, professora da Fonseca de Moura Barbosa, da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul).
“As regiões com maior poder aquisitivo e que receberam investimentos históricos mais pesados, como as regiões do Prosa e do Centro, concentram uma cobertura vegetal mais densa, árvores de maior porte e praças mais estruturadas. Nos bairros mais afastados e de menor renda per capita, a infraestrutura de grandes áreas verdes de lazer e o volume de massa arbórea costumam ser significativamente menores. Essas regiões sofreram ocupações mais rápidas e menos integradas aos planos de paisagismo profundo”, explica Faustino.

Essa leitura da cidade fica ainda mais em evidência se compararmos o Complexo dos Poderes, o Parque das Nações Indígenas e o Parque Estadual do Prosa às periferias populares. Na região leste da cidade, uma série de condomínios horizontais e verticais passou a explorar a proximidade com áreas verdes como um diferencial, incorporando o acesso à natureza ao processo de valorização imobiliária da região. Enquanto isso, o cenário das regiões onde estão concentradas as moradias populares é bem diferente.
Um dos fatores que contribuem para o déficit da arborização urbana nas periferias populares é que as vias dos novos loteamentos estão cada vez menores. Em Campo Grande, por exemplo, é permitido que loteamentos populares possuam ruas de apenas 10 metros de largura, espaço insuficiente para acomodar a faixa de rolamento, a calçada e, ainda, a arborização, o que dificulta o plantio de árvores de grande porte, segundo o geógrafo e doutor em Arquitetura e Urbanismo Júlio Botega, professor da UFMS.
“A gente vê que a alta renda de Campo Grande se concentra no entorno das grandes áreas verdes e ocupa áreas de expansão com terrenos com maior área, enquanto as áreas populares estão cada vez com menos área dentro dos seus lotes e com menos incentivos à arborização. As próprias vias não têm estrutura para ter árvores de grande porte. As habitações sociais, os grandes conjuntos de habitação social e até mesmo os novos parcelamentos com viés mais popular nem sequer preveem o plantio de árvores”, observa Botega.


Árvore para quem?
Embora Campo Grande seja reconhecida pela arborização, a distribuição e a manutenção das árvores seguem sendo um impasse que atravessa anos e mandatos. Enquanto áreas de maior renda, sejam elas centrais ou não, concentram vias e espaços públicos arborizados, as periferias acabam sendo as mais afetadas pela falta de arborização. Em alguns casos, regiões mais pobres nem sequer contam com infraestrutura básica, como asfalto e calçadas.
Nesse contexto, a arborização acaba ficando em segundo plano diante de outras necessidades básicas, conforme observa o geógrafo e doutor em Arquitetura e Urbanismo Júlio Botega, professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). O urbanista acrescenta, ainda, que esse fenômeno não atinge regiões periféricas que concentram empreendimentos de luxo, onde a presença de árvores é mais valorizada.
Outra questão que pesa são os conflitos entre moradores e a arborização, uma vez que a queda de folhas e flores, a presença de animais e a necessidade de manutenção fazem com que algumas pessoas acabem retirando e matando árvores. Para Botega, essas atitudes também revelam as diferenças sociais e de acesso à informação.

Por fim, a doutora em Geografia e especialista em Planejamento Ambiental Eva Faustino pontua que existe uma relação direta entre arborização e sustentabilidade, pois a arborização urbana é vista como uma estratégia inteligente de planejamento. “Atualmente, os órgãos públicos e as empresas privadas priorizam as áreas verdes e estão investindo em cidades mais sustentáveis, humanas e preparadas para o futuro.”
No entanto, Faustino ressalta que a distribuição desigual de infraestrutura e áreas verdes entre os bairros da Capital evidencia a desigualdade socioeconômica de Campo Grande: enquanto regiões de maior renda tendem a concentrar mais investimentos, árvores e espaços verdes, áreas de menor renda são predominantemente uma “infraestrutura cinzenta” (excesso de asfalto e concreto), com menos vegetação e maior exposição às ilhas de calor e aos impactos de eventos climáticos extremos.
“A arborização exerce função importante nos centros urbanos, sendo responsável por uma série de benefícios ambientais e sociais que melhoram a qualidade de vida nas cidades. A arborização deve ser vista como uma infraestrutura essencial de proteção contra o calor, pois a arborização não significa apenas plantar árvores ou criar áreas verdes de recreação pública e de proteção de áreas verdes particulares […] O acesso igualitário à arborização urbana e à qualidade de vida é uma questão de justiça socioambiental”, enfatiza Faustino.

Natureza em conflito com interesses imobiliários
Desde o Plano Diretor de 2018, o geógrafo Júlio Botega, professor da UFMS, aponta um avanço do mercado imobiliário sobre áreas próximas a nascentes e regiões de preservação, citando como exemplos o Córrego Bandeira e o entorno do Parque Estadual do Prosa. Para Botega, isso cria um conflito entre os interesses imobiliários e o planejamento que deveria incentivar a preservação e a arborização da cidade.
Apesar de reconhecer a preservação histórica de córregos arborizados e a existência de parques e praças, o urbanista critica a falta de áreas verdes em diferentes regiões de Campo Grande, além do avanço de empreendimentos sobre áreas de nascentes e corredores de animais, como ocorre na Chácara dos Poderes, no complexo do Parque dos Poderes e na região do bairro Maria Aparecida Pedrossian. Nesse contexto, o urbanista questiona o título de “Cidade Árvore” concedido a Campo Grande.
“Algumas cidades no Brasil e no mundo recebem esses títulos com base, principalmente, em dados fornecidos pelas próprias prefeituras. Eu não entro no mérito de se Campo Grande deveria ou não ter esse título, mas eu acredito que falta muito para considerar a arborização, de fato, um direito de todos da cidade e vê-la como uma parte da infraestrutura urbana. Para mim, [a arborização] virou muito um ativo para o mercado imobiliário, um ativo para ganhar esses títulos internacionais, mas, quando a gente olha para a cidade, para o cidadão, principalmente o de menor renda, esses direitos não chegam a essas pessoas”, expressa Botega.
Imagens: Henrique Arakaki, Jornal Midiamax
Fonte: Midiamax






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