Engenharia do vício: como algoritmos prendem crianças e adolescentes nas redes sociais?
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Algoritmos, notificações e recompensas rápidas ajudam a explicar por que jogos e redes sociais se tornam tão difíceis de abandonar
Com os olhos fixos na tela, Luiz Miguel, de 14 anos, atravessa mundos virtuais no Roblox enquanto novas sugestões de jogos aparecem sem parar. O que começa como uma partida rápida logo se transforma em horas diante da tela. A cena, comum em muitas casas brasileiras, acendeu um alerta entre especialistas após plataformas digitais serem acusadas de projetar mecanismos para manter usuários, especialmente crianças e adolescentes, hiperconectados.
Miguel começou a jogar Roblox por volta dos 12 anos, após assistir a vídeos de criadores de conteúdo no YouTube. “Eu via pessoas jogando e achava interessante. Depois, instalei no celular e comecei a jogar”, conta.
Segundo ele, a principal atração da plataforma é a variedade de jogos e a possibilidade de personalizar o próprio personagem. “Dentro do Roblox, existem vários tipos de jogos, mas eu gosto mais dos de corrida”, diz.
Além de jogar, a plataforma permite que os próprios usuários criem mundos virtuais e experiências para outros jogadores. Miguel nunca chegou a desenvolver um jogo, mas sabe como funciona a ferramenta de criação. “Existe um programa separado para criar jogos que outras pessoas podem jogar”, explica.
Nos últimos anos, o debate sobre os limites do uso de redes sociais e jogos on-line por menores de idade ganhou força no Brasil. Um dos marcos mais recentes foi a aprovação do chamado ECA Digital, que estabelece regras para restringir o acesso de menores a determinadas plataformas e exigir mecanismos de verificação de idade.
Como o Roblox impulsionou um debate nacional

Embora esteja longe de ser o único responsável, o Roblox acabou se tornando um dos símbolos dessa discussão.
Criada em 2006, a plataforma de jogos on-line ganhou enorme popularidade entre crianças e adolescentes a partir de 2021, durante a pandemia de covid-19. No Roblox, cada usuário é representado por um avatar personalizável, com roupas, acessórios e diferentes partes do corpo — itens que podem ser gratuitos ou comprados com uma moeda virtual dentro do próprio jogo.
A criação de jogos e mundos virtuais, citados por Miguel, é chamada de “experiências” e feita a partir da ferramenta Roblox Studio. A combinação de criação, interação social e jogos dentro de um mesmo ambiente ajudou a transformar a plataforma em um fenômeno entre jovens.
A revolta do Roblox

Neste ano, a empresa implementou um novo sistema de verificação de idade e passou a restringir parte das interações entre usuários. Após a confirmação, os perfis passaram a ser classificados em diferentes faixas etárias, e a comunicação passou a limitar-se a pessoas de idades próximas, ou seja, impede interações com usuários muito mais velhos.
O impacto mais visível ocorreu no chat dentro dos jogos. O Roblox anunciou que o recurso será desativado por padrão para menores de 9 anos, podendo ser liberado apenas com autorização dos responsáveis. Essa mudança, contudo, gerou protestos virtuais organizados por usuários na própria plataforma.
Parte das manifestações era direcionada ao influenciador Felca, que, em agosto de 2025, publicou um vídeo denunciando a adultização de crianças em conteúdos nas redes sociais. A repercussão do caso impulsionou o debate público e contribuiu para o surgimento do chamado PL da Adultização, proposta que também busca ampliar a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.
O design feito para prender a atenção

Mas o que torna redes sociais e plataformas digitais tão difíceis de abandonar? Segundo o cientista de dados e pesquisador em inteligência artificial Guilherme Cioccia, grande parte dessas plataformas utiliza algoritmos capazes de aprender rapidamente o comportamento dos usuários.
“Os algoritmos de recomendação se baseiam em dois pontos fundamentais: quem o usuário é na internet e o que ele faz na internet”, explica. Informações fornecidas no cadastro — como idade, gênero ou interesses — são combinadas com dados coletados enquanto a pessoa navega, curte publicações, assiste a vídeos ou faz buscas.
A partir desse cruzamento de dados de milhões de usuários, sistemas de inteligência artificial conseguem prever quais conteúdos têm maior probabilidade de gerar engajamento.
“Se o modelo consegue prever o que o usuário tende a consumir, ele passa a recomendar publicações que aderem quase perfeitamente ao perfil dele”, afirma.
Esse processo ocorre rapidamente, inclusive com novos usuários. “Mesmo com pouca atividade na plataforma, apenas as informações do cadastro já são suficientes para iniciar o ciclo de recomendações. À medida que o adolescente começa a interagir com conteúdos, o sistema se adapta em segundos.”
‘Pessoas passam horas conectadas sem perceber’
Além da personalização do conteúdo, as plataformas utilizam mecanismos de design pensados para prolongar o tempo de permanência dos usuários, como:
Scroll infinito: o feed nunca termina, e novos conteúdos aparecem automaticamente, conforme o usuário rola a tela.
Autoplay de vídeos: os vídeos começam a ser reproduzidos automaticamente, incentivando o consumo contínuo.
Notificações constantes: alertas frequentes de curtidas, comentários ou mensagens estimulam o retorno ao aplicativo.
Recompensas rápidas: curtidas, visualizações e outras interações geram sensação imediata de satisfação.

“Esses sistemas foram criados para gerar zero fricção entre o usuário e a plataforma”, explica Cioccia. “Quando o feed não tem fim e as notificações chamam o usuário de volta, as pessoas podem passar horas conectadas sem perceber.”
Além dos jogos, Miguel também passa parte do tempo em redes sociais como TikTok e Instagram. Segundo ele, é comum perder a noção do tempo ao assistir vídeos. “O feed nunca acaba. Quando você percebe, já passou muito tempo”, relata.
Outro fator que preocupa especialistas é a dificuldade de supervisão por parte dos pais. Como o conteúdo é personalizado para cada perfil, dois usuários podem receber recomendações completamente diferentes dentro do mesmo aplicativo.
“No caso das redes sociais, os pais não conseguem prever o que será recomendado para os filhos. Existem verdadeiras ‘tocas do coelho’, em que um conteúdo aparentemente inocente pode levar a outros cada vez mais extremos em poucos cliques.”
Miguel também afirma ter percebido mudanças no tipo de conteúdo que aparece em suas redes sociais, especialmente após a popularização da inteligência artificial. Mesmo assim, diz que consegue identificar quando um vídeo é falso.
“Dá para perceber pela voz ou pelo jeito que as coisas acontecem no vídeo, mas tem gente que se engana”, afirma. Em algumas ocasiões, ele precisou explicar para familiares que determinados conteúdos eram produzidos com inteligência artificial.
O que acontece no cérebro das crianças?

Além do design das plataformas, especialistas apontam que a dificuldade de interromper o uso de celulares, jogos e redes sociais também está relacionada ao funcionamento do cérebro em desenvolvimento. Essa combinação entre estímulos digitais e fatores biológicos ajuda a explicar por que crianças e adolescentes têm mais dificuldade em controlar o tempo de uso.
Terapeuta e mestranda em Neurociência, Glaucia Benini explica que a resistência das crianças em desligar o celular ou sair de um jogo tem base biológica.
“O cérebro da criança e do adolescente ainda está em processo de desenvolvimento e autorregulação. Estruturas como o córtex pré-frontal, responsáveis pelo planejamento, pela tomada de decisões e pelo controle de impulsos, ainda estão em formação”, afirma.
Conforme a especialista, jogos e redes sociais ativam áreas do cérebro ligadas ao prazer e à recompensa.
“Essas plataformas oferecem desafios e recompensas constantes. Esse mecanismo ativa sistemas cerebrais semelhantes aos envolvidos em comportamentos de dependência. Algo que gera prazer imediato pode se tornar potencialmente viciante.”
Essa lógica de recompensas também influenciava o comportamento de Miguel, que buscava constantemente melhorar seu desempenho nos jogos e nas redes sociais.
“Eu sempre queria ficar no topo e ganhar. Nas redes sociais, queria ter mais visualizações e seguidores”, conta. Quando o resultado não vinha, a frustração era comum. “Às vezes, eu ficava triste ou frustrado.”
Vício em telas impacta comportamento e relações sociais

Para a neuropsicóloga e psicopedagoga Keyth Gimenez, a dificuldade de se desconectar está relacionada tanto ao funcionamento biológico quanto ao contexto social em que crianças e adolescentes estão inseridos.
“É muito comum que crianças e adolescentes tenham extrema dificuldade em interromper atividades no ambiente on-line, como jogos ou conversas digitais, porque muitos desses ambientes funcionam como reforços psicológicos constantes.”
Com o tempo, o uso contínuo também pode afetar as relações sociais presenciais. “Cada vez mais, percebemos uma dificuldade de interação presencial. Muitas crianças relatam que preferem o ambiente virtual e dizem ter dificuldade de conversar ou se relacionar pessoalmente.”
Mesmo quando estão com amigos, o universo digital continua presente. “Muitas vezes, eles estão juntos fisicamente, mas continuam conectados ao mundo virtual por meio de jogos ou do celular. Isso pode prejudicar a convivência em grupo e o desenvolvimento das relações sociais.”
Na casa de Miguel, o tempo de uso do celular gerava conflitos constantes. “Minha mãe dizia que eu passava muito tempo no celular, mas eu achava que estava sob controle”, relata o adolescente.
Além da questão social, Glaucia reforça que o excesso de tempo diante das telas pode causar prejuízos na atenção, memória e concentração. “Muitas crianças passam a apresentar baixa tolerância ao tédio e dificuldade de lidar com momentos sem estímulos.”
Por isso, a especialista destaca a importância de aprender a lidar com momentos que não são necessariamente prazerosos, como tarefas escolares ou períodos de tédio.
“Esses momentos fazem parte da vida e contribuem para o desenvolvimento emocional, para a formação da personalidade e para a capacidade de lidar com frustrações.”
Sinais de alerta

Quando o ambiente on-line passa a ocupar um espaço cada vez maior na vida de crianças e adolescentes, alguns sinais de alerta podem surgir.
Keyth Gimenez explica que, em alguns casos, pode ocorrer confusão entre fantasia e realidade, especialmente quando o jovem passa muito tempo imerso em jogos ou ambientes digitais.
Ivanise Catuver, mãe de Miguel, afirma que o celular ocupava grande parte da rotina do filho.
“De manhã, ele acordava, tomava café e já começava a jogar. Ficava até perto das 11h, quando precisava se arrumar para ir à escola”, relata. À noite, o tempo de uso também se estendia. “Às vezes, ficava jogando até meia-noite ou 1h da manhã.”
Além disso, o comportamento do filho mudou durante esse período. “Ele ficou mais agressivo, principalmente com a irmã.” Miguel, no entanto, nega. Segundo ele, o tempo dedicado às telas não passava de cinco horas diárias.
Outro desafio para a família era acompanhar o que o adolescente acessava na internet.“Eles são muito rápidos. Quando eu chegava perto, já tinham tirado tudo da tela”, conta a mãe.
Apesar da situação representar um desafio, Glaucia Benini destaca que os pais devem ter um monitoramento constante do que a criança acessa na internet. “O ambiente on-line não é totalmente seguro e, em jogos ou plataformas digitais, muitas vezes não se sabe quem está do outro lado da interação.”
Entre os sinais que merecem atenção, as especialistas citam mudanças de comportamento, como perda de apetite, comportamentos regressivos (por exemplo, voltar a fazer xixi na cama), agressividade ao retirar o celular ou tablet, resistência à socialização e alterações bruscas de humor.
Quando esses sinais aparecem, o acompanhamento familiar se torna fundamental. “Os pais precisam estabelecer limites claros para o tempo de uso e acompanhar o que a criança acessa na internet. Além disso, é importante garantir momentos de convivência social, atividades físicas e experiências fora das telas, que são essenciais para o desenvolvimento saudável”, afirma Glaucia.
Meta e Google respondem a processos por ‘viciar’ usuários

Em paralelo, a Meta — empresa responsável pelo Facebook e Instagram — enfrenta um processo judicial relacionado aos impactos das redes sociais na saúde mental de crianças e adolescentes. A companhia é acusada de ter projetado intencionalmente recursos nas plataformas para estimular o uso excessivo e gerar dependência entre os usuários.
O caso envolve uma mulher da Califórnia que afirma ter começado a usar o Instagram e o YouTube ainda na infância. Na ação, ela acusa as empresas de terem desenvolvido plataformas com mecanismos capazes de estimular o uso excessivo, visando aumentar os lucros, mesmo cientes de que as redes sociais poderiam causar prejuízos à saúde mental de jovens usuários.
Conforme a autora do processo, o uso das plataformas contribuiu para o agravamento de sua depressão e para o surgimento de pensamentos suicidas. A Meta e o Google, no entanto, negam as acusações e afirmam que vêm implementando ferramentas e políticas para aumentar a segurança dos usuários, especialmente de crianças e adolescentes.
Durante o julgamento, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, foi questionado sobre a empresa ter projetado intencionalmente suas plataformas para estimular dependência entre os usuários.
Entre os documentos apresentados no processo, está um e-mail do ex-vice-presidente de assuntos globais da Meta, Nick Clegg. Na mensagem enviada a Zuckerberg e a outros executivos, ele afirma que a empresa possui limites de idade que “não são aplicados (ou são inexequíveis?)” e aponta que as políticas diferentes entre Instagram e Facebook tornam “difícil afirmar que estamos fazendo tudo o que podemos”.
Em resposta, Zuckerberg afirmou que é difícil para desenvolvedores de aplicativos verificarem a idade real dos usuários e argumentou que essa responsabilidade deveria recair principalmente sobre os fabricantes de dispositivos móveis.
Mudanças após ficar sem celular

Há duas semanas, o celular de Miguel quebrou, o que mudou parte da rotina da família. Sem acesso ao aparelho, ele passou a ocupar o tempo com outras atividades.
“Estou fazendo outras coisas, como jogar baralho. Tento me interessar por atividades diferentes para me distrair”, conta.
Desta forma, para Ivanise, esse tempo longe do celular fez toda a diferença no convívio familiar. “Agora, ele se senta com a gente, conversa mais e conta como foi o dia na escola. Antes, a gente estava junto, mas ele ficava em silêncio, só jogando.”
Apesar disso, ela percebe que o filho também demonstra sinais de ansiedade desde que ficou sem celular. “Ele fica inquieto, andando de um lado para o outro.”
Mas, por enquanto, a decisão da família é manter o adolescente sem aparelho. “Ele pede todos os dias, mas eu digo que ainda não é o momento. Primeiro, quero ver resultado na escola e respeito dentro de casa”, diz.

Fonte: Midiamax







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